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Outubro de 2023 - dias depois dos ataques de 7 de Outubro, Jerry Seinfeld assina uma carta colectiva de condenação ao Hamas e apoio a Israel; Dezembro de 2023 - Seinfeld visita Israel e reúne com sobreviventes, familiares de reféns e reféns recém-libertados. Mais tarde, descreverá a viagem como a experiência mais poderosa da sua vida; Junho de 2024 - em tournée na Austrália, sempre que é interrompido por espectadores que gritam "Free Palestine!", Seinfeld faz pouco deles. Acontece várias vezes; Outubro de 2024 - à saída de um jogo de basebol, Seinfeld diz a um fã que o interpela: "Vamos, Mets! Vamos, IDF!" IDF é o exército israelita; Fevereiro de 2025 - no aniversário do Saturday Night Live, quando um activista que lhe pede uma selfie e diz "Free Palestine!", Seinfeld responde: "I don't care about Palestine"; 21 de Abril de 2025 - César Mourão anuncia que Jerry Seinfeld vai actuar em Portugal em Novembro, no âmbito do Festival Commedia a la Carte. Do cartaz fazem parte Herman José, Inês Aires Pereira, Cebola Mol, Clarice Falcão, Cuca Monga, Carolina Deslandes, Tatanka e Bárbara Tinoco; Setembro de 2025 - num espectáculo de stand up, Seinfeld compara os activistas que dizem "Free Palestine" ao Ku Klux Klan. Com uma ressalva: diz que o KKK é um bocadinho melhor, porque ao menos não é sonso e afirma directamente que não gosta de negros e de judeus. Junho de 2026 - num jogo de basquetebol em NY, quando um streamer lhe pergunta: "Can we get a «Free Palestine»?", Seinfeld responde que "não existe"; Agosto de 2026 - é anunciado que Pedro Tochas também participará no Festival; Setembro de 2026 - Cebola Mol, Tatanka, Inês AP, Cuca Monga, Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco e Pedro Tochas cancelam a sua participação no Festival para não partilharem o evento com um defensor de Israel. Alguns dizem-no abertamente, outros deixam sonsamente implícito; Como membro desta comunidade alargada de gente da cultura, devo dizer que me sinto orgulhoso. A sociedade costuma ver-nos como malta distraída e pouco perspicaz, mas estes colegas precisaram de menos de três anos para topar que Jerry Seinfeld tem umas opiniões desagradáveis sobre o conflito entre Israel e a Palestina. E não era fácil. Seinfeld é um humorista obscuro e as suas declarações são raras. Quando as faz, são pouco comentadas em podcasts de comédia e completamente ignoradas pela imprensa - a da especialidade e a generalista. Presumo que, quando os convidaram para participar num festival com Jerry Seinfeld como cabeça de cartaz, tenham perguntado: "Jerry quem?" Na verdade, 35 meses acaba por não ser muito. Provavelmente, até foram mais expeditos e já sabiam há mais tempo. As últimas semanas de espera foram apenas para garantir que os espectáculos não estavam mesmo a vender bilhetes, para tornar mais barata esta decisão virtuosa. Felizmente, aperceberam-se a tempo. O Festival seria daqui a um mês e, caso não tivessem tido esta epifania, iriam ver o seu nome associado ao de Benjamin Netanyahu, num certame organizado pela Mossad e pago com dinheiro da indústria do armamento israelita. Ou ao de um humorista pró-israelita, o que vai dar ao mesmo. Valeu-lhes o Instagram e o Tik Tok. É hábito dizer-se que não se aprende nada nas redes sociais mas, pelos vistos, estes artistas que cancelaram as suas participações só souberam que Seinfeld pensa de uma forma inaceitável depois de terem sido iluminados por activistas online. Que lhes explicaram bem quem é Seinfeld e o que acontece a quem se associa a ele. Ficar mal visto pela @alice85desenho_de_uma_melancia e pelo @Daniel_IntifadoDo31 é mais arriscado do que quebrar um compromisso profissional assumido há vários meses. O azar de César Mourão é não ter @ à frente do nome. Lixou-se. Desde o Nova que a questão israelo-palestiniana não escangalhava um festival.