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O que esperar da rentrée política?

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Temos o prazer de começar a rentrée política em grande, com uma moção de censura do Chega ao Governo. Que emoção! Os meios de comunicação não falaram de outra coisa. Claro que o comportamento do MAI devia preocupar-nos - sobretudo a sua arrogância durante a conferência de imprensa. Há muitas suspeitas, demasiadas. Será a moção de censura justificada? Digamos que o comportamento do MAI, a atitude do Primeiro-Ministro, bem como das lideranças do PSD, não ajudaram…

Contudo… Será esta moção de censura assim tão importante? Ou não fará tudo isto parte de um circo político-mediático com que os nossos políticos e jornalistas têm o prazer de nos inundar de tempos a tempos? Se o Governo cair, claro que esta se torna importante. Contudo… mesmo que o Governo PSD caia, para além da vida dos políticos profissionais e dos membros da alta burguesia de Lisboa (que conseguem os bons tachos), será que a vida dos 11,4 milhões de habitantes vai mudar para melhor? Será que isto tudo ainda faz sentido? Não serão estes casos e casinhos, esta arrogância de certos membros da "elite", esta impunidade que grassa nas classes dirigentes, antes um claro sinal de que a III República está gangrenada? Algo cheira mal neste regime. Diria antes: algo cheira mal nesta época… Que "fin de règne" patético. Já Karl Marx dizia que a História se repetia sempre duas vezes: a primeira enquanto tragédia, a segunda enquanto farsa. O final da Primeira República foi uma tragédia (miséria, violência, golpes, etc.). O final da Terceira República é uma farsa.

Consequentemente, quando me perguntam o que espero da rentrée política portuguesa, costumo dar a mesma resposta há pelo menos 10 anos: pessoalmente, não espero nada. Não espero nada a não ser casos e casinhos, polémicas e compadrios, corrupção e mediocridade. Simplesmente porque somos governados por pessoas que, não todas, mas na sua maioria, são incompetentes, sem capacidades para governar um país desenvolvido (por quanto tempo seremos um país desenvolvido?) e que apenas anseiam entrar na política não para engrandecer o país, mas sim para engrandecer a sua conta bancária. Provavelmente, vamos continuar na mesma: nada muda para melhor, mas, pelo contrário, tudo piora ligeiramente, de ano para ano.

Claro, o Governo pode vir a cair agora no Outono de 2026, ou na Primavera de 2027, ou no Outono de 2027 (é provável, quando o senhor Carneiro tiver os tais 5% a mais). Podem surgir mais casos de ministros que envergonhem o Governo. Alguns até podem demitir-se. Podem surgir mais histórias ligadas ao caso Spinumviva. Vivemos numa constante telenovela, com os seus casos e casinhos, Governos que caem, novas eleições, novos Governos que caem, novas eleições e novos Governos que irão cair, não sem antes termos o seu leque de moções de censura, gritarias no Parlamento, explicações na televisão. Teremos ministros que enriqueceram de maneira pouco clara. Secretários de Estado que fizeram favores a tal pessoa pouco recomendável. Membros do Governo que eram sócios de ministros do antigo Governo do partido adversário. Empresas criadas com fundos europeus, concursos supostamente públicos mas bem privados, e, claro, o inevitável compadre do partido, conhecido dos anos em que todos militavam nas jotas… Sim, provavelmente vamos ver isto tudo no final de 2026, em 2027, em 2028, etc.

Uns estarão aborrecidos, outros enojados. Alguns preferem usar e abusar do humor, de tão caricata que se tornou a nossa política nacional. Isto mostra, por si só, o estado de acelerada decomposição — e peso as minhas palavras — em que Portugal se encontra. Claro que nunca devemos generalizar. Existem, de certeza, muitos governantes inteligentes, trabalhadores e com ideias para mudar o país. Mas, infelizmente, estes têm-se tornado uma minoria e são muitas vezes impedidos pelos "outros": aqueles que apenas usam e abusam dos seus cargos para enriquecer, acumular bens, influência e poder. Enquanto tudo isto nos prende a atenção, que ideia ousada foi implementada nos últimos anos? Que é que os Governos PS ou PSD fizeram para ajudar os jovens e menos jovens que, mesmo tendo empregos pagos acima da média, não conseguem comprar casa, de tão absurdos que estão os preços? Que tem sido feito para controlar melhor as fronteiras? Que tem sido feito pela natalidade? E para melhorar a segurança? E para melhorar os serviços administrativos? Que fizeram para lutar contra as cunhas, a corrupção e o nepotismo? Que é que o Governo apresentou como medida realmente inovadora? Uma medida que tenha sido um "choque" relativamente aos anos anteriores? Dizem-me para deixar o "Luís trabalhar". Mas de que trabalho falamos?

O imobilismo total, eis o que nos define. Vivemos num ciclo histórico afogado numa visão de que as coisas não devem mudar, de que não devemos reformar — já li no Observador um colunista criticar aqueles que querem reformar demasiado — e quem quer reformar é visto com desconfiança. Reformar instituições que não funcionam leva logo a greves gerais. Este imobilismo, sinal dos tempos, é, para mim, também um sinal de "fim de época". E quando o provável único estadista que tivemos nos últimos 30 anos afirma que é preciso reformar e não só — falo, evidentemente, de Pedro Passos Coelho — é atacado quer pelo PSD, quer pelo PS. Mas não se preocupem: não é apenas em Portugal, é geral em quase todo o Ocidente. Só que, em Portugal, a corrupção, o nepotismo e a incompetência já vêm de longe. Mesmo no fim da ditadura do Dr. Oliveira de Salazar, as elites portuguesas ficavam aquém do resto das elites ocidentais. Como o nível no resto do Ocidente baixou - e muito - apenas fomos acompanhando a descida. Mas, como aqui os problemas já eram muitos, apenas ficámos com ainda mais problemas.

Quando, em 2006, o jornalista e intelectual Franz-Olivier Giesbert perguntou ao escritor de ficção científica Maurice G. Dantec se existia realmente um declínio do Ocidente, o escritor — que se tornara crítico da descristianização do Ocidente, da imigração extra-europeia e da islamização de certos bairros europeus, que via como a maior ameaça existencial ao Ocidente — deu-lhe uma resposta lapidar: "a questão não é tanto saber se existe um declínio, mas sim se existem elites". Quando, num outro programa, um apresentador lhe perguntou qual a razão da sua desconfiança em relação às elites francesas (e europeias), Dantec respondeu, mais uma vez, de maneira assaz mordaz: "porque os políticos franceses são meros porteiros (concierges no original) que apenas legislam sobre os limites de velocidade nas aldeias". A definição que Maurice G. Dantec deu dos políticos franceses assenta que nem uma luva aos políticos portugueses. Tal como em França, os nossos políticos são meros pequenos técnicos, sem coragem, que apenas legislam sobre coisas menores, como a recolha do lixo, os limites de velocidade ou a interdição dos telemóveis nas escolas. Quanto às elites europeias sediadas neste antro burocrático e cinzento, privado de qualquer coragem política, em que se tornou o Parlamento Europeu, o maior feito que conseguiram nos últimos 10 anos foi terem imposto que as tampas das garrafas de plástico estivessem presas às garrafas.

Tentemos não desesperar. Ainda pode surgir um estadista que tente movimentar as coisas. Claro que, para isso, terá de ter uma equipa. Juntar uma equipa de pessoas capazes e íntegras deve ser possível em Portugal. Difícil, mas possível. Não sei se tal vai acontecer, embora seja o que eu mais desejo. Um líder que pegue num PSD moribundo, deite a ideologia social-democrata no caixote do lixo e consiga aliar toda a direita portuguesa à volta de um projecto liberal-conservador. Sou sonhador? Sim, sou, demasiado. Mas, infelizmente, não vivemos numa época de sonhadores, mas sim de cínicos… Resta apenas responder à pergunta de Dantec: a questão não é saber se Portugal está em declínio… Pois Portugal está em declínio. A questão é saber se existem elites.

"Nous sommes menacés par bien pire que la chute, dit Heidegger, car il manque jusqu'à la hauteur d'où nous pourrions tomber." (tradução: Somos ameaçados por algo bem pior do que a queda, diz Heidegger: falta-nos até a altura de onde poderíamos cair.)

Alain de Benoist

L'exil intérieur. Carnets intimes, Krisis / edições La Nouvelle Librairie, 2022

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