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O início de uma verdadeira guerra

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"Isto é essencialmente o início de uma verdadeira guerra", foram as palavras de Sergei Lavrov depois de, no passado dia 1 de setembro, a Alemanha ter acusado formalmente a Rússia de estar por detrás de uma tentativa falhada de ataque com um drone explosivo no aeroporto de Leipzig. Foi provavelmente a ameaça mais direta feita por um porta-voz do Kremlin a um país europeu ocidental desde o início da invasão da Ucrânia. Tão significativo como as afirmações em si foi quem as proferiu. Ao contrário de outras figuras ligadas ao Kremlin, como o ex-presidente Dmitri Medvedev (conhecido pelos seus comentários inflamatórios e descabidos), Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo desde 2004, é talvez a personalidade mais institucional dentro do regime de Putin. Por isso, é difícil imaginar que estas declarações tenham sido ditas "da boca para fora". Com toda a probabilidade, foram calculadas e propositadas, inserindo-se na estratégia de Putin de escalar o conflito, não apenas na Ucrânia, mas também em relação aos seus aliados europeus.

Esta retórica tem sido acompanhada por ataques de vários tipos: desde tentativas de destruição de fábricas ligadas à produção de drones ucranianos na Polónia e na Eslováquia, a incursões ilegais de drones no espaço aéreo da Roménia e no Báltico. Esta campanha de "zona cinzenta", na qual Putin se tornou especialista, permite a Moscovo multiplicar os seus ataques aos países europeus da NATO, sem que, por não serem aparentemente significativos o suficiente, os mesmos sujeitem a Rússia a uma resposta conjunta e mais musculada da aliança.

Também por isso, um confronto direto entre a Rússia e a NATO permanece uma possibilidade remota. Mas o erro está precisamente em focar a análise apenas nesse cenário mais imediato e catastroficamente óbvio. O objetivo de Putin não é iniciar um confronto direto com a Europa, um confronto que, aliás, sabe que dificilmente venceria, mas antes minar a própria estrutura de alianças do Ocidente, procurando o seu desmantelamento por dentro de forma a neutralizar a força daqueles que vê como seus principais adversários sem nunca ter de os confrontar diretamente. A hibridez destes ataques torna a sua caracterização particularmente difícil, mas nem por isso a ameaça deve ser menosprezada. A Rússia está hoje a escalar de forma propositada as tensões com a Europa e a tornar-se cada vez mais arrojada nas suas iniciativas, em grande parte face à incapacidade de resposta europeia. Quem, na falta de tanques e soldados, não quiser chamar às ações da Rússia guerra não é obrigado a fazê-lo. Mas deve, pelo menos, reconhecer a gravidade do momento e admitir que esta é a ameaça mais séria à integridade territorial da NATO desde o fim da União Soviética.

O medo da escalada face à Rússia pautou durante anos a política europeia. Durante décadas, a Alemanha, o mesmo país hoje vítima de um dos mais graves ataques russos, foi a maior proponente de uma postura de détente, a chamada Ostpolitik. De Willy Brandt a Angela Merkel, a tese sempre foi a de que concessões e integração económica eram a única maneira de evitar um conflito. A estratégia não só falhou, como tornou a Europa, em grande medida, incapaz de reagir perante as sucessivas agressões e invasões russas, deixando-a refém energética de Moscovo. Esta postura suave para com a Rússia manteve-se depois de o Kremlin se ter revelado como uma potência agressora e neo-imperialista, tanto em 2008 (na Guerra Russo-Georgiana) como em 2014 (anexação da Crimeia), e, finalmente, em 2022 (invasão da Ucrânia). Mesmo perante o perigo óbvio, a Europa procurou sempre fugir ao confronto com a realidade. Ainda hoje, continuamos a comprar gás natural e petróleo à Rússia, mais de quatro anos após o início deste conflito, o que constitui o exemplo mais claro da falta de disposição para arcar com custos mais significativos a curto prazo em nome de um fim mais rápido das agressões de Putin.

Lendo corretamente essa indisposição, Putin percebeu que, para derrotar a Ucrânia, precisa antes de a separar dos seus aliados europeus. E, nisso, a sua estratégia acaba por espelhar a dos próprios ucranianos. Tal como a Ucrânia percebeu que, para minar o esforço de guerra russo, tinha de tornar o seu custo visível aos cidadãos comuns, de modo que o Kremlin já não conseguisse isolar os habitantes das consequências da guerra, também Putin percebeu que a forma de quebrar o apoio europeu a Kiev é trazer a guerra às portas dos cidadãos europeus. Na ausência de ganhos na linha da frente, o objetivo passa a ser dividir a aliança, multiplicando os ataques híbridos de forma a explorar divisões internas e a pôr em causa o apoio à Ucrânia. E Putin sabe, aliás, que não é preciso um abandono generalizado, bastando uma hesitação mais substantiva dos aliados no seu apoio para concretizar ganhos substanciais no terreno.

Esta lógica ajuda ainda a perceber o timing destes ataques. A Alemanha, depois das eleições de domingo em Saxónia-Anhalt, que deram uma vitória histórica à AfD, tem agora pela frente duas eleições cruciais, em Berlim e Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, que poderão colocar o governo do chanceler Friedrich Merz numa posição insustentável. Para mais, em 2027, eleições fulcrais desenrolar-se-ão em França (onde Marine Le Pen é favorita destacada), Itália, Estónia, Espanha e Polónia. Putin pode até não ser fã da democracia no seu próprio país, mas sabe perfeitamente que uma intensificação dos ataques nos meses que antecedem estes exercícios eleitorais por toda a Europa pode desestabilizar ainda mais o tabuleiro político.

A análise do Presidente russo ganha particular relevância num momento em que, por essa Europa fora, se prescreve já o fim da aliança transatlântica com os EUA. Mas se é verdade que temos assistido a um certo desacoplamento dos americanos e a uma Europa que percebeu, ao fim de várias décadas, que precisa de ser autossuficiente na sua defesa, a verdade é que os acontecimentos recentes mostraram também que a NATO poderá ser mais resiliente do que Putin gostaria de imaginar.

Na verdade, após a queda da União Soviética e durante o momento unipolar dos EUA, a NATO perdeu grande parte da sua razão de ser estratégico-militar: o grande inimigo a Leste tinha, aparentemente, sido derrotado. A partir daí, na ausência de uma ameaça comparável, a aliança começou a ser cada vez mais definida pelo alinhamento de valores como a democracia, o Estado de direito, o compromisso com uma ordem liberal, em detrimento do alinhamento de interesses que, embora sempre acompanhado pela linguagem dos valores, constituíra a sua base estratégica durante a Guerra Fria. Isto não é dizer que os valores fossem irrelevantes antes de 1991. É antes dizer que, perante uma ameaça comum, eram os interesses estratégicos e as realidades materiais que davam à aliança a sua coesão fundamental.

Esta transição de uma aliança de interesses para uma aliança percebida sobretudo como de valores acelerou nos anos Obama, com o pivot americano para o Pacífico. À medida que os interesses de Washington se voltavam para o Indo-Pacífico, começaram a divergir dos europeus, ainda ancorados numa Rússia reemergente, sobretudo após a invasão da Geórgia em 2008. E agora, com a segunda administração Trump, até os tais valores que passaram a ser vistos como a base fundamental da aliança parecem ter deixado de contar. As atitudes do presidente americano têm sido, não só muitas vezes atentatórias desses mesmos princípios (como no caso das ameaças à Gronelândia ou da retirada de apoio aos países europeus por divergências ideológicas), como adotam uma lógica aparentemente cega a princípios e valores. Daí que, como Macron em 2019, muitos tenham diagnosticado a "morte cerebral" da aliança.

Mas esta leitura parece falhar em duas frentes.

Em primeiro lugar, reforço, a NATO não nasceu como uma espécie de frente unida por abstrações e intangibilidades. A aliança nasceu como resposta a uma ameaça muito concreta (a URSS, sim, mas os totalitarismos no geral) e como reflexo de uma mundividência partilhada entre Europa e EUA, onde a forma mais segura de evitar conflitos no futuro e assegurar a primazia dos sistemas ocidentais no plano internacional era através da cooperação e integração. Ademais, o destacamento permanente de forças militares americanas na Europa assim como a criação de bases em solo europeu era, antes de mais, do pleno interesse dos EUA. Não só permitiram conter as pretensões expansionistas soviéticas durante a segunda metade do século XX, como concederam uma plataforma de projeção do poder militar americano para todo o mundo, em particular para o Médio Oriente. Nunca houve almoços grátis: se os EUA investiram na defesa do continente europeu, foi também, e sobretudo, por interesse próprio, algo claramente demonstrado pela resposta da administração Clinton, em particular da então secretária de Estado americana, Madeleine Albright, à cimeira de Saint-Malo, no final dos anos 90.

A importância estratégica da NATO é, de resto, também reconhecida pelo sucessor de Albright, o atual secretário de Estado, Marco Rubio, que, em 2024 (talvez agora para seu embaraço) encabeçou a inclusão de uma disposição no 2024 National Defense Authorization Act (NDAA), que impede o presidente de suspender, terminar ou retirar os EUA da NATO sem a aprovação expressa de uma maioria de 2/3 do Senado ou uma lei expressa do Congresso para o efeito.

Em segundo lugar, se é verdade que, principalmente nos primeiros 20 anos deste século, os interesses geopolíticos dos EUA e da Europa se distanciaram, nomeadamente com a crescente preocupação de sucessivas administrações americanas com a China, a verdade é que, com particular ênfase desde a invasão russa de 2022, esses interesses têm vindo a convergir. Hoje, é cada vez mais difícil olhar para o teatro do Indo-Pacífico e para o teatro na Ucrânia como duas realidades separadas. A China assume-se hoje como o principal parceiro de Moscovo, tanto do ponto de vista militar como diplomático e até económico, com o mercado chinês a funcionar como o principal destino das exportações petrolíferas do Kremlin.

Esta relação é claramente ilustrada pela atenção que Putin tem dedicado à construção do gasoduto Power of Siberia 2, que permitirá aumentar ainda mais as exportações energéticas russas para o mercado chinês. Esta dependência tem dado a Pequim um poder de alavancagem muito significativo sobre Moscovo, com Xi Jinping a adiar propositadamente o processo de construção do Power of Siberia 2 de forma a extrair mais concessões e preços ainda mais reduzidos do seu principal aliado.

Com a China e a Rússia a aprofundarem a sua parceria, os interesses estratégicos dos europeus e dos americanos parecem estar numa rota de convergência que concederá ainda mais incentivos à cooperação transatlântica no plano militar. Isto não significa, evidentemente, que a aliança não atravesse tempos (muito) turbulentos. Mas convém lembrar que a turbulência tem acompanhado a NATO essencialmente desde a sua fundação. Basta recordar a crise do Suez, em 1956, que opôs diretamente França e o Reino Unido aos EUA, ou a saída da França do comando militar integrado da NATO em 1966, ou, ainda, as sucessivas tentativas do Congresso americano, como, por exemplo, a emenda Mansfield, de retirar tropas americanas da Europa. Ao longo de todas estas crises, a aliança manteve-se, e manteve-se, sobretudo, porque os incentivos estratégicos de fundo se mantiveram também. O período em que estamos hoje não parece ser exceção.

Numa palavra, o fim da NATO parece mais distante do que muitas vezes se faz parecer no discurso público. Mas isso não deve servir como consolo aos europeus. A sobrevivência das alianças e da proteção a que nos habituámos não é um dado adquirido, e Putin está ativamente a apostar contra ela. Toda a estratégia russa de procurar escalar o conflito assenta na premissa de que a Europa, confrontada com uma crise no seu território, hesitará e, como no passado, será incapaz de responder. É uma aposta, apesar de tudo, racional. Durante anos, a política europeia em relação a Moscovo foi feita de medo, de apreensão e de sucessivas tentativas de apaziguamento, e foi essa mesma hesitação, essa recusa em arcar com o custo imediato, o adiar constante da decisão difícil, que deu a Putin todas as razões para acreditar que, desta vez, não será diferente.

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