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A "costela galega" de Paulo Portas

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Há tempos, um amigo meu, galego e espanhol, em Pontevedra, dizia-me uma coisa que não esqueci: "Entre os galegos, não há nem VOX nem PODEMOS porque discutimos as nossas coisas à volta da mesa, com comida quente e um bom vinho." Esta é a sabedoria da expressão 'a modiño': uma calma pausada e pragmática que caracteriza a política na Galiza.

Quando Paulo Portas evocou esta mesma ideia na Universidade de Verão do PSD, invocando as suas raízes paternas em Pontevedra, reconheci a beleza da referência. Mas reconheci também a distância entre a nostalgia e a realidade, entre o afeto familiar e a dura necessidade de uma política externa que produza resultados concretos.

O problema: a moderação que não modifica nada

Paulo Portas apresentou a Galiza como um modelo de moderação política: um Parlamento "sem gritaria". Uma lição de civismo para os portugueses e para a Europa. É uma ideia elegante e fácil de aplaudir. Tem, contudo, um problema grave: confunde a moderação dos debates com a eficácia da ação.

A verdade que ninguém nomeia é esta: a Galiza é moderada nos diálogos parlamentares, sim, mas é extraordinariamente eficaz na defesa dos seus interesses económicos. O Parlamento galego não tem um VOX porque a região já resolveu, há décadas, as questões que radicalizam outros territórios — mediante negociação direta, investimento público sistemático e cooperação transfronteiriça com Portugal.

Paulo Portas propõe que Portugal imite a calma alheia. Mas o que Portugal precisa não é de mais calma nas bancadas parlamentares. É de ação concreta que equilibre as relações económicas com Espanha.

O paradoxo de Portas: a elegância que não funciona

Há uma ironia profunda em ver Paulo Portas transformado no apóstolo da moderação política. O mesmo Portas que revolucionou a política portuguesa nos anos 90, como diretor de O Independente, utilizando o ataque mediático e a crispação como armas de governação. O mesmo que, no Parlamento e na liderança do CDS, fez do populismo securitário e da polarização a sua imagem de marca.

Não era 'a modiño'. Nunca foi.

No entanto, o verdadeiro paradoxo é outro. Durante o tempo em que Paulo Portas esteve no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, com poder para implementar uma estratégia concreta com a Galiza, a sua "costela galega" não resultou em nenhuma iniciativa estrutural significativa. Embora houvesse planos em curso, como a ligação Porto-Vigo, estes ficaram apenas no papel, tendo sido adiados para os mandatos seguintes. Não houve um projeto de infraestruturas transfronteiriças, nem investimento em cooperação cultural ou uma política ativa de aproximação linguística que aproveitasse a proximidade entre os dois territórios.

A "costela galega" de Portas serviu como brilharete retórico de verão, consumido num auditório de jovens quadros partidários. Nunca passou de um postal ilustrado sem consequência prática.

Isto é importante porque revela a verdadeira natureza do discurso: é elegância sem substância. É nostalgia biográfica, não estratégia nacional.

Três falhas que explicam o vazio

A intervenção de Paulo Portas na Universidade de Verão contém três falhas fundamentais.

Primeira: evitar o tema que interessa de verdade. Portas falou de demografia, de defesa e de política externa, sempre de forma genérica. Nunca tocou na questão que estrutura a relação entre Portugal e Espanha — o défice comercial. Importamos de Espanha incomparavelmente mais do que aquilo que para lá exportamos. Portugal exporta 5 mil milhões de euros para Espanha, (valores 2024) mas importa 17 mil milhões, criando um défice bilateral de cerca de 11 mil milhões de euros — o que representa mais de metade do volume comercial bilateral. Este desequilíbrio não é acidental. Somos economicamente dependentes de um mercado que nos desequilibra. Nenhuma moderação parlamentar resolve isto. Esta relação desigual não se harmoniza com qualquer momento de calmaria, seja nos debates de Lisboa, Santiago ou Bruxelas.

Segunda: ignorar que a Galiza é a solução, não a ilustração. A Eurorregião Norte de Portugal-Galiza é o motor industrial, tecnológico e logístico mais dinâmico do Atlântico peninsular. Se Portugal tivesse uma política externa pragmática — verdadeiramente 'a modiño', ou seja, focada no resultado —, esta região seria uma porta de entrada das nossas exportações no mercado espanhol e europeu. Seria o ativo através do qual poderíamos ajudar a equilibrar as nossas contas.

Portas sabe isto. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas preferiu fazer lirismo sobre a felicidade parlamentar alheia a propor ações concretas que transformassem a proximidade com as autonomias políticas raianas num ativo real.

Terceira: confundir política com sentimento. A moderação que importa não é a que se apregoa nos microfones das universidades de verão. É a que se traduz em políticas públicas que funcionam. É o pragmatismo que diz: "Sim, existe proximidade cultural. Logo, vamos utilizar essa proximidade para fazer mais negócios e desenvolver infraestruturas e cooperação industrial que equilibrem Portugal face a Espanha."

O que falta: três ações concretas

Se a política portuguesa quisesse ser verdadeiramente 'a modiño' — pausada, pragmática e focada no resultado — teria de fazer três coisas.

Primeira: revitalizar a infraestrutura que liga. A ligação ferroviária de alta velocidade Porto-Vigo não é apenas um projeto de engenharia. É um ato de soberania económica. Conecta diretamente o principal porto português com a principal via de acesso à Galiza. Transforma a geografia. Muda a lógica comercial. E é uma ligação constantemente adiada.

Segunda: integrar as cadeias de valor transfronteiriças. Portugal tem competências em tecnologia, agroindústria e serviços. A Galiza tem capacidade industrial de transformação e logística. Não é complicado: complementam-se. Multiplicam-se. Mas isto exige que alguém, no Governo português, negoceie diretamente com a Junta da Galiza, com as províncias e com as empresas da região — não apenas com Madrid, que não legisla sobre estas questões.

Terceira: fazer desta região a grande porta de entrada das exportações portuguesas no mercado espanhol. Hoje, Portugal e Espanha trocam mercadorias, mas o desequilíbrio persiste porque não há estratégia. Há apenas comércio passivo. Se Portugal quisesse assumir uma posição ativa, faria desta zona fronteiriça o pivô dessa transformação.

Isto não é nostalgia biográfica. É pragmatismo de quem compreende que a vizinhança galega deveria ser um motor de riqueza, não um adereço de retórica.

A verdadeira moderação

Não é a moderação que une Portugal e a Galiza. É a ação concreta. É o reconhecimento de que somos próximos — culturalmente, linguisticamente e geograficamente — e de que essa proximidade tem de traduzir-se em políticas públicas e privadas que funcionem.

Portas tem razão numa coisa: a ausência de radicalismo no Parlamento galego é uma qualidade. Mas não é uma qualidade decorrente apenas do silêncio das bancadas. É uma qualidade porque permite que os representantes políticos concentrem a sua energia em questões económicas reais: emprego, infraestruturas, inovação e cooperação transfronteiriça.

Portugal precisa dessa mesma focagem. Menos lições sobre a calmaria alheia. Mais pragmatismo na defesa dos seus interesses.

Esperemos que este Paulo Portas de hoje — aquele que invoca 'a modiño' — seja capaz de fazer convergir as suas palavras com as suas ações. Começando pela Galiza, aquela "costela galega" que merecia mais do que um postal nostálgico numa universidade de verão.

Porque a verdadeira felicidade de um Parlamento — à portuguesa ou à galega — não se mede pela ausência de gritaria. Mede-se pela capacidade de transformar a proximidade em riqueza, a vizinhança em dignidade e a nostalgia em estratégia.

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